sábado, 20 de fevereiro de 2010

ELOGIO DO PECADO

Bruna Lombardi


Ela é uma mulher que goza
celestial sublime
isso a torna perigosa
e você não pode nada contra o crime
dela ser uma mulher que goza

você pode persegui-la, ameaçá-la
tachá-la, matá-la se quiser
retalhar seu corpo, deixá-lo exposto
pra servir de exemplo.
É inútil. Ela agora pode resistir
ao mais feroz dos tempos
à ira, ao pior julgamento
repara, ela renasce e brota
nova rosa

Atravessou a história
foi queimada viva, acusada
desceu ao fundo dos infernos
e já não teme nada
retorna inteira, maior, mais larga
absolutamente poderosa.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

POEMA DO SILÊNCIO


Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
-Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...

O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.

Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...
Senhor dá-me o poder de estar calado,
Quieto, maniatado, iluminado.

Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!

Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
Era por um de nós. E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.

Mas o meu sonho megalómano é maior
Do que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista...

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
E sobre mim de novo descerá...

Sim, descerá da tua mão compadecida,
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome.

sábado, 16 de janeiro de 2010

DO AMOR QUE SINTO



Há tantos dias vasculho minha alma sem respostas
Há tantos dias procuro você: Onde você está?
Há tantos dias você a meu lado e não me vias.
Hoje sentada em frente ao espelho perguntei: Ele me ama?
E o espelho respondeu: Fique em silêncio e escute o coração dele batendo.
Sim, eu procuro ouvir seu coração. Antes batia acelerado descompassado de emoção.  Hoje bate calmamente.
Acalme-se!, respondeu o espelho.
Hoje, reli um poema que ele me fez: "Um beijo nos seus lábios angelicais, e outro nos seus lábios infernais".
Não é mais o amante que vivia grafitando poemas nas minhas pernas.
Me sinto só, amando um sonho!

domingo, 3 de janeiro de 2010

DEVIA MORRER-SE DE OUTRA MANEIRA


Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos...
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além vêem? — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

QUANDO EU ESTIVER COM AS RAÍZES


Quando eu estiver com as raízes
chama-me com tua voz.
Irá parecer-me que entra
a tremer a luz do sol.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

A MAIOR SOLIDÃO É A DO SER QUE NÃO AMA

VINICIUS DE MORAES

A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

VEM , SERENIDADE!


Vem, serenidade!
Vem cobrir a longa
fadiga dos homens,
este antigo desejo de nunca ser feliz
a não ser pela dupla humidade das bocas.

Vem, serenidade!
faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros
e com que os ombros subam à altura dos lábios,
faz com que os lábios cheguem à altura dos beijos.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

BOM É QUE NÃO ESQUEÇAIS


Bom é que não esqueçais
Que o que dá ao amor rara qualidade
É a sua timidez envergonhada
Entregai-vos ao travo doce das delicias
Que filhas são dos seus tormentos
Porém, não busqueis poder no amor
Que só quem da sua lei se sente escravo
Pode considerar-se realmente livre

CANTIGA DE AMOR


Porque não queres contar as estrelas comigo?
Acaso a noite não lhe parece tão bela
e a lua tão majestosa?

Triste dos homens de nosso tempo
que já não vêem a lua como senhora dos amantes.
e nem o céu repleto de encantos.

Não será tão deliciosamente vertiginoso
se entregar por inteiro a quem te ama?
Não será divino deixar que a flecha fira seu coração docemente
e saborear todos os caminhos que a brisa do amor te levar?

Não é doce meu olhar e quente o meu corpo?
Ele tão te clama e sofre com sua ausência?
Não é pecado recusar em ti um amor que só cresce a todo instante?

Será que nossas diferenças te impedem de me amar
como seu fosse a única?
Não é a vida feita de únicos instantes e é isto é tudo o que nos temos?
Acaso não percebes que ao pensar na vida inteira
perde o significado singular de cada momento?

Não quero ser sua mulher pra vida inteira.
Quero ser sua ESTRELA.

sábado, 19 de dezembro de 2009

CONTIGO


Longe de você, estando em lugares sombrios,
me deixo seduzir pelo primeiro crápula.

Se vejo a morte de aproximar ,e não estas perto de mim
me entrego a sua foice sem um único grito.

Se tenho que lutar contra as espécies de natureza malévola
e não tenho tua espada e teu escudo, sucumbo ao primeiro golpe.

Se em minha armadura de prata não tem uma flor com um beijo seu
qualquer um pode perfurar meu coração.

Se durmo ao relento e não sonho contigo
porque devo acordar e abrir os olhos?

Se te amo e não sonhas com meu beijo
engulo como fel minha paixão.

Se ao contrário, encontro você passeando em meu caminho
não sucumbo, não morro, não me perfuram
abro os olhos e te entrego a minha paixão, como num sonho.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

SE EU PUDESSE TRINCAR A TERRA TODA

Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma cousa para trincar
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se,
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...



terça-feira, 1 de dezembro de 2009

NEGA-ME O PÃO, O AR


Nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

TER OU NÃO TER NAMORADO, EIS A QUESTÃO


Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remunerada de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão, é fácil. Mas namorado, mesmo, é muito difícil.
Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega do lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção não precisa ser parruda, decidida ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.

Quem não tem namorado é quem não tem amor, é quem não sabe o gosto de namorar. Há quem não sabe o gosto de namorar... Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes, mesmo assim pode não ter nenhum namorado. Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho. Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa, é quem ama sem alegria. Não tem namorado quem faz pacto de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugida ou impossível de durar. Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas, de carinho escondido na hora em que passa o filme, de flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada, de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.

Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, de fazer cesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor. Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai pelos parques, fliperamas, beira d’água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da metro. Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem gosta sem curtir, quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada, ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais. Não tem namorado quem ama sem se dedicar, quem namora sem brincar, quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo. Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e medos, ponha a saia mais leve, aquela de chita e passeie de mãos dadas com o ar.

Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria.

Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida, para de repente parecer que faz sentido. ENLOU-CRESÇA.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O JARDIM DO MEU AMOR


Te amo com a alegria de Ícaro de ter tocado no sol
mas contando com a sabedoria de Orfeu
que desceu ao inferno para resgatar Eurípides
e diferentemente da história grega
eu não tive medo de amar e
como uma devota fiel acreditei em nós
e apostei todas as fichas e arrisquei tudo
como um boa jogadora
que aprendeu com seus erros
a hora certa de dar as cartas
a carta da rosa vermelha
sedução
a carta da olhos de uma coruja
sabedoria
a carta da fecha dourada
guerreira
a carta das liras
a poesia
a carta da máscara do riso
alegria
a carta das lágrimas de sal
fragilidade
a carta das oferendas
admiração absoluta
a carta da aliança
fidelidade
a carta do abraço
amizade
a carta da cadeira de balanço
paciência
a carta das mãos dadas
cumplicidade
a carta do espelho
identificação
Todas essas sementes plantei no jardim do meu amor
e agora espero apenas que os raios do sol
realize a fotossíntese nos meus desejos
e eu saia colhendo flores para te enfeitar.

ACROSS THE UNIVERSE - LENNON/ McCARTENEY

"Sounds of laughter, shades of love are ringing through my opened ears,
Inciting and inviting me.
Limitless undying love, which shines around me like a million suns,
And calls me on and on across the universe.

Jai guru deva, Om.

Nothing's gonna change my world,
Nothing's gonna change my world,
Nothing's gonna change my world,
Nothing's gonna change my world.

Jai guru deva,
Jai guru deva,
Jai guru deva,
Jai guru deva,
Jai guru deva,
Jai guru deva..."

domingo, 15 de novembro de 2009